Foto: Ilustração.
Antes que a cortina se abra e as luzes se apaguem, um ritual silencioso (ou quase) se repete em teatros do mundo inteiro: três sinais sonoros avisam que o espetáculo está prestes a começar. O gesto, muitas vezes percebido apenas como protocolo, carrega uma história longa e cheia de significados.
Na prática, os sinais funcionam como uma organização do tempo coletivo. O primeiro aviso é um chamado cordial ao público para se dirigir à sala. O segundo indica que o início é iminente e que o deslocamento deve cessar. O terceiro, definitivo, marca a travessia simbólica, a partir dali, plateia e artistas passam a compartilhar o mesmo tempo da cena. Não é apenas um aviso técnico, mas um acordo ritualístico silencioso de atenção e presença.
Essa tradição, porém, antecede em muito os teatros contemporâneos. Há registros de uma versão desse ritual no século XVII, na corte de Luís XIV, o Rei Sol. Nos espetáculos realizados nos palácios franceses, os sinais eram utilizados para organizar a entrada da nobreza, respeitar hierarquias e garantir que todos estivessem acomodados antes do início das apresentações. O teatro, naquele contexto, era também um instrumento político e cerimonial, e o controle do tempo fazia parte da encenação do poder.
Com o passar dos séculos, o protocolo atravessou fronteiras e foi sendo ressignificado. O que antes organizava cortes reais passou a organizar plateias diversas. Ainda assim, manteve seu caráter ritualístico. Para muitos artistas, os três sinais são o momento exato em que o mundo exterior fica para trás e o tempo do espetáculo começa a se instaurar.
Mais do que um simples toque, os três avisos constroem uma preparação coletiva. Eles lembram que o teatro não começa apenas no palco, mas na escuta, no silêncio e na disposição de quem assiste. Talvez por isso, mesmo em tempos de tecnologia e informalidade, o ritual persista, porque ele marca algo que nenhuma tela consegue substituir, o encontro ao vivo entre cena e plateia.



