Por que artistas desejam “merda” antes de subir ao palco?

Escrito em 21/12/2025
William Axel (@williamaxell)

Você já ouviu alguém desejar “merda” antes de uma apresentação? No teatro, a expressão não é ofensa nem brincadeira.

 



Foto: ilustração/banco de imagens

 

    Quem não é do meio teatral costuma estranhar. Antes de uma apresentação, em vez de ouvir “boa sorte”, atores, atrizes e técnicos trocam entre si um desejo aparentemente inusitado: “merda”. A expressão, longe de ser ofensiva, carrega uma tradição centenária do teatro europeu e permanece viva até hoje nos palcos do mundo inteiro.

    A origem mais difundida do costume remonta ao século XIX, período em que o público chegava aos teatros em carruagens puxadas por cavalos. Em noites de grande sucesso, a concentração de veículos em frente ao prédio era tão grande que a rua ficava tomada por dejetos dos animais. Assim, “muita merda” tornava-se um sinal claro de casa cheia e espetáculo bem-sucedido.

    Com o tempo, a expressão ultrapassou o sentido literal e passou a funcionar como um código simbólico entre artistas. Desejar “merda” significava desejar público, reconhecimento e continuidade do trabalho em cena.

    Além da explicação histórica, o costume também revela uma visão particular do teatro sobre o próprio ofício. Diferentemente de outras áreas, a cena desconfia da ideia de sorte como acaso. Um espetáculo não acontece por milagre, mas por meio de ensaios, erros, ajustes, muitas repetições e risco. Nesse contexto, desejar 'boa sorte' soa quase ingênuo, enquanto desejar 'merda' reconhece o esforço coletivo.

    A tradição é tão forte que, entre artistas, a resposta correta ao ouvir “merda” não é um agradecimento, mas a repetição da palavra. Um gesto simples que funciona como pacto silencioso antes da entrada em cena.

    Mais do que superstição, o hábito revela a memória viva do teatro e sua linguagem própria. Um modo de lembrar que cada apresentação depende do encontro com o público e que, quando o teatro acontece de verdade, ele deixa marcas, inclusive fora do palco.


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