Foto: Divulgação
Era devaneio, mas também havia ali o desejo latente de duas mulheres, cujas histórias eram contadas por meio de cartas. Cartas que expressavam desejos, intimidades e liberdades. Inspirado na relação entre Virginia Woolf e Vita Sackville-West, o espetáculo da Cia. Bravia leva à cena uma história de amor entre duas mulheres, atravessada por cartas, desejos, literatura, memória e liberdade.
Meu primeiro contato com a escritora Virginia Woolf aconteceu em 2002, quando assisti ao filme As Horas, dirigido por Stephen Daldry, com atuações de Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore. Até hoje, permanece na minha memória a cena da partida de Virginia, caminhando em direção ao lago.
Sempre que vejo algo relacionado a Virginia Woolf, faço uma associação imediata com o universo de Clarice Lispector. Ambas são perturbadoras. Escritoras que desnudam nossos desejos, nossas inquietações e aquilo que muitas vezes tentamos esconder de nós mesmos. Inexplicáveis, talvez justamente porque não oferecem respostas fáceis.
Ontem, 16 de agosto, no Theatro José de Alencar, assisti ao espetáculo Vita & Virgínia, com direção afiada da veterana Herê Aquino.
Meu interesse pela direção teatral também passa por Herê. Comecei a me apaixonar por seu trabalho quando assisti aos espetáculos Macunaíma e Deus Danado. Há, em seu teatro, um trabalho muito afinado entre direção e atores, uma relação que se percebe na construção das cenas e no rigor da composição.
E não consigo superar — e que bom que não consigo — Deus Danado, com Adauto Garcia e Alcântara Costa. Para mim, Deus Danado está entre os dez melhores espetáculos que levarei comigo quando chegar a hora de prestar contas lá em riba, diante de São Pedro.
Talvez seja justamente essa memória afetiva que me faça olhar para Vita & Virgínia com atenção redobrada. Há algo de muito particular quando um espetáculo nos provoca não apenas pelo que apresenta, mas também pelo que desperta em nós: lembranças de outros palcos, outros atores, outras histórias e outros encontros com o teatro.
De olho
As atuações das atrizes Marina Brito e Liliana Brizeno estão irrepreensíveis.
Marina apresenta uma atuação mais expansiva, pulsante e pronta para ocupar o palco. Liliana, por sua vez, constrói uma personagem mais contida, tal como era Virgínia: cheia de perguntas, conflitos internos e silêncios que revelam muito mais do que as palavras.
Na linha de atuação, as atrizes partem de registros diferentes, mas, ao longo da trama, vão encontrando uma sintonia cada vez mais homogênea. Esse percurso contribui para a construção da relação entre as personagens e dá à cena uma dinâmica própria.
Outro acerto está na direção, ao utilizar o próprio texto dramático como forma de leitura das cartas. A escolha funciona como uma boa solução cênica e mantém a cena dinâmica, evitando que a leitura das cartas se torne um recurso meramente ilustrativo.
Quanto ao cenário, em alguns momentos tive a impressão de que as atrizes poderiam, em algum momento, recorrer às cartas que estavam penduradas no espaço. Fiquei esperando que esse elemento cenográfico ganhasse uma função mais direta, especialmente nos momentos oníricos da peça. Talvez explorar essas cartas como parte da ação pudesse ampliar ainda mais a dimensão simbólica do cenário e estabelecer um diálogo mais potente entre o espaço, a memória e o universo das personagens.
O espetáculo “Vita & Virgínia” merecia uma temporada mais duradoura. No entanto, não podemos esquecer que temporadas de um, dois ou três meses no Ceará ainda não fazem parte do plano de ação das Organizações Sociais (OSCs) que administram a Rede de Equipamentos Culturais do Estado do Ceará.
Um espetáculo que encontra força artística e estabelece diálogo com o público precisa também de tempo para amadurecer, alcançar diferentes espectadores e construir sua trajetória.
Talvez seja justamente essa uma das questões que precisamos colocar em debate: por que os nossos espetáculos permanecem tão pouco tempo em cartaz? E, sobretudo, como criar condições para que uma produção teatral não seja apenas apresentada, mas tenha a oportunidade de construir uma verdadeira temporada?
Teaser: https://www.youtube.com/watch?v=SGI_gpZ_814
+ sobre Cia Bravia
É uma companhia de teatro criada por mulheres artistas pesquisadoras que buscam e acreditam no protagonismo feminino em seus processos criativos, entendendo o teatro como um lugar de construção artística, de encontro e de ação política. A companhia é composta, atualmente, por seis artistas: Liliana Brizeno, Herê Aquino, Marina Brito, Gigi Tubiba, Letícia Marran e Marina Brizeno, que se dividem nas funções técnicas e artísticas dentro da companhia.
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