A Borra: UMA “VIÚVA” PARA ESQUECER DE UM “BEIJO”

Escrito em 14/08/2026
Edson Cândido (@edson_candido1)

Abro os jornais e me deparo com um crime bárbaro. Requinte de crueldade



Foto: Jornal OPOVO em 11/08/2026


O que diria Nelson Rodrigues diante de um crime tão bárbaro?

Nelson foi um dos dramaturgos mais brilhantes e geniais que o Brasil revelou. Em sua obra, escancarou a podridão da mente humana e expôs, sem pudores, as contradições e os desejos ocultos da classe média. Os dois grandes gênios da dramaturgia brasileira se completam: Nelson abriu o “esgoto”; Plínio Marcos entrou nele.

Assim como em A Vida como Ela É..., Nelson teve sua própria vida marcada pela tragédia. Não por acaso, seu biógrafo, Ruy Castro, o chamou de “anjo pornográfico”.

Nelson Rodrigues espiou o Brasil pelo buraco da fechadura, mas também testemunhou a tragédia de perto — no quarto de sua própria casa ou, pior, na redação do jornal onde trabalhava. A tragédia não era, para ele, uma ficção distante: estava nas ruas, nas famílias, nos desejos, nos crimes e nas contradições de um país que ele transformou em matéria-prima de sua dramaturgia.

 


“Na tarde fatídica, uma jovem chamada Sylvia Seraphim irrompeu jornal adentro à procura do pai de Nelson, Mário Rodrigues. A mulher chamou a atenção dos poucos jornalistas presentes àquela hora. Linda e loira, bem maquiada e perfumada, estava fora de si porque o jornal publicara fofocas que diziam respeito a um caso extra-conjugal que tivera e que motivara seu desquite — um tabu para a época. A história fora relatada com riqueza de detalhes sórdidos, e, embora não tivesse sido escrita por ninguém da família Rodrigues, saíra no jornal sem assinatura do responsável. Ou seja, a conta recairia principalmente sobre o diretor da publicação. Sylvia entrou no prédio do Crítica e foi direto à sala da direção, decidida a matar Mário Rodrigues. Não havia ninguem ali. Na volta, ela cruzou casualmente com Roberto, e, ao perceber que estava diante do filho do diretor, pediu para lhe falar em particular. Roberto, muito educado, levou-a àquela mesma sala vazia para conversar e acalmar a mulher. Nesse mesmo exato instante, o jovem Nelson Rodrigues deixava a Redação para ir tomar um café nas redondezas. Voltou correndo ao ouvir o estampido do revólver. Sylvia havia disparado um único e fatal tiro contra o abdome de Roberto. Detida, não resistiu. Disse apenas: Podem me largar. Eu não faço mais nada. Queria matar o doutor Mário Rodrigues ou o seu filho. Estou satisfeita.”


Algumas das ilustrações de Roberto Rodrigues, assassinado aos 23 anos ( Fonte: https://renatoessenfelder.substack.com/p/uma-flor-de-obsessao-a-vida-tragica)

Nelson escreveria mais tarde o seguinte sobre o irmão, em suas memórias:

 


Meu irmão Roberto foi o único gênio que conheci na minha vida. Era um artista de cinema, um galã daqueles tremendos, deflorador terrível. Ele aliás era tentado, seduzido pelas mulheres. Entrava numa casa de família e todo mundo se apaixonava por ele. Se havia duas irmãs, eram as duas irmãs. Um negócio tremendo. E, ainda por cima, era um sujeito denso, tinha um negócio assim trágico, fatal, aquela certeza de que ia morrer cedo. Em todas as suas ilustrações, os enforcados, os assassinados, tinham a sua cara.

Vi no último dia 09 de agosto no Teatro Nadir Papi Saboya , o novo espetáculo da Comédia Cearense “Viuva, Porém Honesta”.


A história se passa em torno de Dr. J. B. de Albuquerque Guimarães, diretor do jornal A Marreta, um dos mais influentes do Brasil. Homem poderoso e conservador, ele tenta convencer sua única filha, Ivonete, a abandonar o luto e deixar de frequentar o cemitério para velar o corpo de seu antigo marido, Dorothy Dalton. Aos olhos do pai, Ivonete ainda é muito jovem, com apenas 15 anos, e deveria retomar uma vida considerada “normal”: casar-se novamente, constituir uma família e lhe dar os tão desejados netos. Para ele, a morte precisa ser superada e a vida deve seguir seu curso. Ivonete, porém, recusa-se a aceitar as regras impostas pelo pai e pela sociedade. Entre o cemitério, a memória do marido morto e a pressão para reconstruir sua vida, ela revela os conflitos de uma sociedade marcada pelo moralismo, pelo controle sobre o corpo feminino e pelas convenções sociais.

Ponto de vista (olho)

Saí encantado com o conjunto cênico. Atores e atrizes entregues, de corpo inteiro, ao universo rodriguiano — um território onde desejo, moral, hipocrisia e tragédia se encontram sem pedir licença.

Confesso que a última montagem, “O Beijo no Asfalto”, não me provocou a mesma inquietação. Faltou ousadia. E, quando se trata de Nelson Rodrigues, o medo de romper limites é quase um pecado imperdoável. Nelson exige risco, exagero, provocação. Exige que o teatro não peça desculpas por incomodar.

Nesta montagem, porém, a coisa muda de figura.

De cara, o cenário já provoca. Há um contentamento visual que ultrapassa o mero caráter figurativo e estabelece, desde os primeiros instantes, uma relação com o universo da obra. Os painéis estampados com imagens de Nelson Rodrigues poderiam ganhar ainda mais dinamismo e exploração cênica, mas já cumprem uma função importante: não estão ali apenas para decorar; ajudam a construir uma atmosfera.

A iluminação também parece encontrar seu caminho. Ainda está em processo de ajuste, buscando a medida exata para sustentar um elenco de peso sem disputar com ele o protagonismo. E elenco de peso, convenhamos, não falta.

Hirol­do Serra pode se orgulhar: tem um time de respeito nas mãos.

Entre tantos bons momentos, destaco as atuações de Roberto Reial, no papel do médico, e Manoela Bacelar, como a viúva. São presenças que compreendem o jogo rodriguiano e sabem transitar entre o realismo, o exagero e o absurdo — justamente onde Nelson costuma instalar suas armadilhas.

Mas talvez o maior mérito esteja no conjunto. Há sintonia entre os atores, uma escuta coletiva que revela uma direção dinâmica, ágil e, sobretudo, colaborativa. A montagem não parece engessada: respira, se movimenta e encontra no trabalho do elenco sua principal força.

E não posso esquecer o figurino. Ruth Aragão, veterana da agulha, da linha e, principalmente, do bom gosto, acerta novamente na construção visual dos personagens. Nada parece gratuito. O figurino participa da narrativa e ajuda a revelar aquilo que os personagens muitas vezes tentam esconder.

No fim, fica a sensação de que  a Comédia Cearense, reencontra Nelson Rodrigues quando deixa de tratá-lo como peça de museu e volta a encará-lo como aquilo que ele sempre foi: um autor incômodo, perverso, engraçado, trágico e perigosamente atual.

E talvez seja justamente aí que esteja a força desta montagem: não ter medo de olhar para Nelson — e deixar que Nelson olhe de volta para nós.


“invento roupas e figurinos como 
territórios vestíveis que se configuram no 
fluxo das trocas de subjetividades e 
materialidades. No desejo de ampliar 
ideias, imagens e conceitos, tensiono
processos, metodologias e estéticas 
através de investigações e 
experimentações provocadas pela dança, 
o teatro, a cidade, os sons, os corpos, o 
cinema, a palavra, o traço, o design, a 
música, o bordado, a poesia, a 
paisagem; o tempo” 

Ruth Aragão 


SERVIÇO

Viúva, porém honesta

Quando: 16, 23 e 30 de agosto, domingos, às 19h
Onde: Teatro Nadir Papi Saboya
Endereço: Rua 8 de Setembro, 1331, Varjota
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Vendas: Sympla
Classificação indicativa: 14 anos


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