Marco Nanini interrompe espetáculo, e decisão de retomar sem Libras gera revolta e vaias no teatro

Escrito em 19/10/2026
Lucas Alexandre (@lucasalexandreator)

Sessão no Teatro Simões Lopes Neto foi marcada por protestos após decisão de retomar o espetáculo sem tradução em Libras; episódio gerou manifestações da produção, da equipe de acessibilidade e da instituição responsável pelo espaço.


Espetáculo "Fim de Partida". Foto: Fernando Young/Divulgação

A apresentação de Fim de Partida, no domingo (18), no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre (RS), foi marcada por uma interrupção motivada por divergências sobre a iluminação destinada à intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras). Menos de dez minutos após o início, o ator Marco Nanini pediu a suspensão da sessão e o fechamento das cortinas, alegando que as sombras provocadas pela iluminação prejudicavam sua visão da profissional. Após uma tentativa de solucionar o problema, a apresentação foi retomada sem tradução em Libras, provocando vaias, protestos e a saída de espectadores.

 


>
Imagens: Rede sociais

Durante a interrupção, a equipe do teatro buscou resolver a questão com os técnicos, os profissionais de tradução e a produção do espetáculo. Com o prolongamento da pausa, uma representante do Multipalco Eva Sopher informou ao público que a sessão continuaria sem o recurso de acessibilidade, decisão atribuída à produção da montagem. Espectadores surdos deixaram a sala, acompanhados por parte do público ouvinte, que também se retirou em protesto.

A intérprete Ângela Russo, fundadora da Para Todos Acessibilidade e integrante da equipe que atuava na sessão, relatou à Matinal o impacto do episódio. “Muito triste mesmo. Ainda estou em choque”, afirmou. A profissional também destacou sua relação de longa data com a comunidade surda. Após o ocorrido, a Para Todos Acessibilidade publicou uma manifestação nas redes sociais.

O caso gerou posicionamentos públicos de outras duas instituições envolvidas: a Pequena Central de Produções Artísticas, responsável pela produção de Fim de Partida, e a Fundação Theatro São Pedro, ligada à administração do complexo cultural. As três manifestações foram divulgadas após o episódio, mas seus conteúdos precisam ser considerados individualmente para que as justificativas e responsabilidades apresentadas por cada parte sejam compreendidas com precisão.

Escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, Fim de Partida integra o repertório do teatro do absurdo. Na montagem, Marco Nanini interpreta Hamm, personagem cego que permanece em uma cadeira de rodas, enquanto Guilherme Weber dá vida a Clov. O episódio ocorrido em Porto Alegre trouxe para o centro da discussão as condições de acessibilidade nas artes cênicas e os procedimentos necessários para conciliar questões técnicas da encenação com o direito do público de acompanhar o espetáculo.

 


.