A Borra - Espaço de reflexão crítica sobre as Artes Cênicas no Ceará
Ontem, 14 de março de 2026, fui conferir de perto o novo trabalho do Cangaias Coletivo, no teatro B. de Paiva, fruto do Laboratório de Criação do Porto Iracema das Artes (MOPI 13). O espetáculo teve tutoria do ator e dramaturgo Giordano Castro, do Grupo Teatral Magiluth.
A Borra, voltou!
Foto: Folha de São Paulo
Sobre o espetáculo é
É PAIA!
Sim, é paia!
Um grupo de existência e resistência, com quase 16 anos de estrada, “só” tinha como ser “paia”.
O espetáculo “Josefina, uma peça-rato” é baseado no último texto escrito por Franz Kafka, datado de 1924. O conto apresenta a rata Josefina, que possui uma vocação para o canto.
Foto/reprodução: Porto Iracema das Artes
Os “ratos”, representados pelos atores — público, nós mesmos —, somos aqueles que vivemos nessa ratoeira da vida: nas mazelas, no submundo... bem lá depois da CEASA, em Maracas; lá onde onde “ratão” “RP” vive uma eterna monarquia.
O conjunto cênico está em plena sintonia. Todos compartilham uma mesma linearidade de interpretação, nem mais, nem menos.
É mais uma prova de que valeu a pena a trajetória de 16 anos do grupo. Insistir nessa porra de teatro, ora cansa, ora ninguém sabe ao certo para onde isso vai... mas vai, segue. Um dia vem o retorno. Nunca financeiro. A casa na Beira-Mar talvez nunca venha, mas o arrebatamento, a catarse que o público sentiu ontem deixam ainda mais evidente que valeu a pena essa caminhada, Cangaias.
O espetáculo é fruto de uma política pública desenvolvida pelo Porto Iracema das Artes, equipamento mantido pela Secretaria da Cultura do Governo do Estado e gerenciado pelo Instituto Dragão do Mar.
Nos bastidores, a equipe do Porto trabalha com muito amor, dedicação e zelo por esse projeto. Há um cuidado visível em cada detalhe. Levy, Edilberto, Claudinha e todos técnicos… o brilho nos olhos revela o quanto acreditam no que fazem. Sabe aquela galera que vai junto, que sustenta o processo? São eles.
Vida longa ao Porto Iracema das Artes.
A peça fala das experiências dos atores, da luta de fazer arte no dia a dia. Não existem paredes: tudo está sendo exposto a todo momento.
A dificuldade de articulação do ator Jeferson não aparece em cena, mesmo ele deixando clara essa dificuldade ao articular o texto. O que aparece em Jeferson é a safra de novos e potentes atores (sem vaidade) que está surgindo para além dos muros da CEASA..
“lá de onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove e que só berra da geral sem nunca influir no resultado. Falo dessa gente que transa pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão, que apesar de tudo é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente numa existência melhor na paz de Oxalá...” (Plínio Marcos)
Saí do teatro acreditando na resistência do teatro de grupo, que a cada dia precisa matar um leão para sobreviver.
Eles, do Cangaias Coletivo Teatral, estão conseguindo.
Vem mais um Shell para o Ceará.
O espetáculo “Josefina, uma peça-rato” terá apresentações no Teatro B. de Paiva e no Teatro José de Alencar. Para mais informações, confira o Instagram do grupo (@cangaiascoletivoteatral).
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