Espetáculo cearense Cassacos é indicado ao Prêmio Shell de Teatro na categoria Destaque Nacional

Escrito em 16/01/2026
Lucas Alexandre (@lucasalexandreator)

Produção do Grupo CriAr, de Varjota, reforça a descentralização do prêmio e amplia o debate sobre memória, identidade e resistência no teatro brasileiro


Foto: reprodução/rede social    

    O espetáculo Cassacos, do Grupo CriAr de Teatro, de Varjota, no interior do Ceará, está entre os indicados ao Prêmio Shell de Teatro, na categoria Destaque Nacional. Considerada uma das mais tradicionais iniciativas de reconhecimento das artes cênicas no país, a premiação tem ampliado, nos últimos anos, seu olhar para produções fora do eixo Rio-São Paulo, valorizando a diversidade estética, territorial e temática do teatro brasileiro.

    A montagem resgata a história dos chamados “cassacos”, trabalhadores que, entre o fim do século XIX e meados do século XX, atuaram em grandes obras públicas como estratégia de enfrentamento às secas no Nordeste. Utilizado de forma pejorativa, o termo passou a designar operários do semiárido que, mesmo diante da escassez e da exclusão, permaneceram em seus territórios e contribuíram diretamente para a formação de povoados e cidades. Em cena, o espetáculo articula memória histórica, invenção poética e a perspectiva do interior do Brasil para refletir sobre identidade, resistência e permanência.

    Selecionado para o Laboratório de Criação Teatral do Porto Iracema das Artes (2024/2025), Cassacos contou com tutoria de Quitéria Kelly e Henrique Fontes, do Teatro Carmin. O trabalho reafirma o papel das pequenas cidades na leitura crítica do país e evidencia a potência criativa de grupos que produzem fora dos grandes centros urbanos.

    A indicação de Cassacos dialoga com um movimento recente do Prêmio Shell em direção à descentralização. Em 2025, o Ceará já havia sido contemplado em categorias de destaque nacional. Na categoria Direção, Jéssica Teixeira foi reconhecida pelo espetáculo Monga. Já na categoria Destaque Nacional, o prêmio foi concedido a A Força da Água, do Grupo Pavilhão da Magnólia, de Fortaleza, consolidando a presença da cena cearense entre as produções mais relevantes do país.

    A ampliação do alcance do Prêmio Shell tem sido vista como um avanço importante para a representatividade do teatro brasileiro, ao reconhecer talentos locais e estimular a produção regional. Ao mesmo tempo, o processo levanta debates sobre desigualdades de infraestrutura, circulação e visibilidade entre as regiões, além dos desafios logísticos para uma avaliação equitativa em escala nacional. Ainda assim, a iniciativa aponta para um esforço de leitura mais ampla e consciente das múltiplas realidades que compõem a cena teatral do Brasil.

 


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