Mais Plateia reúne companhias históricas que transformaram o palco em espaço de reflexão política e identidade cultural na capital venezuelana.
Fundación Rajatabla (Venezuela) em cena. Foto: acervo do grupo
A notícia da invasão dos Estados Unidos em Caracas, registrada no dia 03 de janeiro de 2025 e amplamente repercutida nos noticiários internacionais, reacendeu debates sobre soberania, identidade e resistência cultural na Venezuela. Diante desse cenário de tensão política e simbólica, o Mais Plateia propõe ampliar o olhar do público apresentando cinco grupos de teatro com longa trajetória de atuação na capital venezuelana, companhias que, ao longo de décadas, transformaram o palco em espaço de reflexão crítica, posicionamento político e afirmação estética, mantendo viva a cena teatral mesmo em contextos de crise e instabilidade.
Teatro Municipal de Caracas
Caracas concentra parte importante do teatro venezuelano contemporâneo, com grupos que mantêm repertório, formação e pesquisa de linguagem mesmo em contextos instáveis para a cultura. A seguir, cinco companhias atuantes que se destacam por uma assinatura estética consistente e por um diálogo direto com temas sociais e políticos.
Entre os nomes mais emblemáticos está a Fundación Rajatabla, criada em Caracas em 1971, associada à ideia de teatro como crítica social e construção de linguagem própria. A companhia se consolidou a partir de montagens marcantes e de um trabalho continuado de produção e formação, mantendo o debate sobre sociedade no centro da cena.
Outra referência é o Grupo Actoral 80, fundado em 1983 por Juan Carlos Gené, artista argentino que chegou à Venezuela em contexto de exílio e articulou um projeto de teatro focado no trabalho do ator, repertório amplo e continuidade de pesquisa. Hoje, o grupo mantém trajetória ininterrupta e circulação, com direção ligada à escola de formação e à criação de um teatro atento ao seu tempo.
Espetáculo "Art" do Grupo Actoral 80 (Venezuela). Foto: acervo do grupo
No campo da pesquisa e da linguagem, o Grupo Theja se apresenta como organização dedicada à investigação teatral e à construção de uma “estética e ética” próprias, afirmando a cena como forma de interpretar a realidade contemporânea. Já o Grupo Skena, com décadas de atividade, combina criação e formação, sustentando um espaço de experimentação e permanência, frequentemente associado à ideia de preservar um lugar de expressão e identidade cultural.
Espetáculo "El Alquimista" do Grupo Theja (Venezuela). Foto: acervo do grupo
Fechando a lista, o Grupo Teatro del Contrajuego aparece como companhia que trabalha clássicos e contemporâneos em fricção, com a intenção declarada de refletir, em cena, o que o país vive, além de manter ações de formação continuada. É um exemplo de grupo que transforma método e repertório em posicionamento.
Ao longo da história recente da Venezuela, o teatro tem se afirmado como mais do que espaço de entretenimento, consolidando-se como território de produção de conhecimento, pensamento crítico e elaboração simbólica da realidade. Em contextos de crise política, econômica e social, os artistas assumem também o papel de agentes políticos, transformando a cena em lugar de resistência, memória e questionamento, onde a criação artística permanece ativa mesmo diante das adversidades, reafirmando o teatro como prática estético-política para a compreensão do presente e a construção de outros futuros possíveis.