A Borra - Lampejo

Escrito em 09/11/2025
Edson Cândido (@edson_candido1)

A Borra - Espaço de reflexão crítica sobre as Artes Cênicas no Ceará


Espetáculo Lampejo. Foto: Micaela Menezes

 

Receita da Amazônia Encantada


1 quilo do balançar da diva do Calypso, Joelma — musa das “bonitas”, que faz o chão tremer com um giro de cabelo.

4 arrobas do Boi Caprichoso e do Boi Garantido, dançando no compasso das toadas que ecoam na floresta.

1 tiquinho do banho nos rios Tapajós e Arapiuns, em Alter do Chão, onde a água é espelho e alma.

2 pitadas de carimbó, pra temperar com corpo, tambor e sorriso.

E o recheio — ah, o recheio! — feito de Chico Mendes, raiz e resistência, o homem que ousou sonhar justiça na mata, e pagou com a vida o preço da esperança.


 





Foto histórica de recrutas do contingente conhecido como Soldados da Borracha, mobilizados entre 1943-45 para extração de látex na Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial. Autor e data não identificados.

 

Silêncio... vai começar!
Na última terça (04/11) fui assistir a Lampejo no Teatro Dragão do Mar.
Logo na entrada, fui recebido pelos atores que ofereciam oportunidades de trabalho no seringal:

“Você vai mudar de vida.”
“Seja patriota!”

Um convite tentador — a promessa de mudar de vida e, quem sabe, comprar meu apartamento na Beira-Mar.

O espetáculo tem início em cena aberta, mas é interrompido abruptamente por uma propaganda institucional:

 


“Seja bem-vindo, bem vinda e bem vind@x ao Teatro Dragão Mar, esse equipamento...”

 

Precisa ter o institucional, tudo bem — mas faz lá fora, na recepção do público, por favor!
Não interrompe o coito do espetáculo.
A peça já começou.
Os atores não podem ser interrompidos.

Então, silêncio!
Paguei inteira, não foi meia!

Voltemos para peça

 

Lampejo

substantivo masculino - clarão ou brilho momentâneo; faísca, centelha; cintilação.

 

A peça retrata o período do Segundo Ciclo da Borracha, ocorrido na década de 1940, quando o Nordeste enfrentava uma grande seca. Nessa saga, muitos nordestinos partiram em busca de novas perspectivas, migrando para o Norte do país.

O governo da época, sob a liderança de Getúlio Vargas, firmou um acordo com os Estados Unidos para reativar a produção de látex na região amazônica. Foram realizadas diversas campanhas no rádio, solicitando apoio para o recrutamento dos chamados “soldados da borracha”, oferecendo-lhes a promessa de melhores condições de vida e enriquecimento, tudo em nome do patriotismo.

Mais de 55 mil trabalhadores foram recrutados para atuar nesse ciclo, em sua maioria nordestinos.
Não é preciso dizer que o trabalho era árduo e trazia todas as características de um regime de trabalho análogo à escravidão.

De acordo com relatos da época, cada família de seringueiro recebia, a cada três meses: três sacos de farinha, um saco de feijão, um pequeno saco de sal, um saco de arroz, oito latas de banha e vinte gramas de quinino, medicamento utilizado no tratamento da malária. A carne só era consumida quando havia a sorte de caçar ou pescar alguma coisa.


+ Informações: “Soldados da Borracha”  https://www.youtube.com/watch?v=kf4I79Ye-HM

 



Print dos cometários documentário "Soldados da borracha"

O espetáculo Lampejo, do coletivo Zanzulim, traz à tona os relatos de vários cearenses que imigraram para os estados da Amazônia Legal — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão (em parte), Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins — e nunca mais voltaram.

O fio condutor da peça é o relato do diário de Tia Quinha, tia-avó do ator Júnior Barreira, que corajosamente se desnuda em palavras para narrar a fuga de sua família, à época residente na cidade de Uruburetama, interior do Ceará.

A encenação é uma cartografia viva, um mapa afetivo do percurso dessa migração forçada. A sonoplastia ao vivo acrescenta outra camada de sensibilidade à obra e, sendo a composição do Beto Menêis e a direção musical do Zéis, dispensa comentários.

Os atores estão em perfeita sintonia com a história. Destaque para a atriz Samara Garcia, que, de forma visceral, não precisa fazer muito esforço para interpretar as palavras personificadas do diário de Tia Quinha. Beto Menêis, ator experiente, dono de si, malcriado e bem-criado, mostra novamente sua força em cena. Já o conheço de outros “giros”, e aqui ele reafirma sua presença.

Muito boa a composição do figurino, que remete à terra; e a luz, um clarão de beleza. Salve Aline Rodrigues. Que apareça mais iluminadoras na cena cearense.

A direção cênica do espetáculo acerta na junção entre luz, som, imagem e atuação.

Agora, o “chato”: a diretora Monique Cardoso, ao apostar na força poética do texto, poderia ter explorado um pouco mais os atores, em detrimento da palavra. Poderia também fazer maior uso do espaço e das possibilidades tecnológicas que a memória traz no enredo. Ferramentas não faltam — e, nesse aspecto, Lampejo transborda talento.

O espetáculo Lampejo está em cartaz todas as terças-feiras de novembro, no Teatro Dragão do Mar, dentro do projeto Teatro da Terça, sempre às 19h30.  Ingressos na plataforma Sympla

(https://bileto.sympla.com.br/event/112424?share_id=1-copiarlink

Imperdível!

O outro lado

É curto — apenas 50 minutos.
Eu queria mais.
Até pagaria  por mais uns 20 minutos...

 

Ficha Técnica

DIREÇÃO - Monique Cardoso

ELENCO - Junior Barreira, Zeis, Beto Meneis, Samara Garcia

DRAMATURGIA -Coletiva

FIGURINO -Dami Cruz

MÚSICAS -Beto Meneis

DIREÇÃO MUSICAL -Zéis

DRAMATURGIA DE LUZ -Aline Rodrigues

IDENTIDADE VISUAL - Beatriz Benitez

COLABORAÇÃO -Bárbara Kariri

PRODUÇÃO -Junior Barreira

 

 

Por Edson Cândido (@edson_candido1)


.