A Borra - Espaço de reflexão crítica sobre as Artes Cênicas no Ceará
Espetáculo Lampejo. Foto: Micaela Menezes
Receita da Amazônia Encantada
1 quilo do balançar da diva do Calypso, Joelma — musa das “bonitas”, que faz o chão tremer com um giro de cabelo.
4 arrobas do Boi Caprichoso e do Boi Garantido, dançando no compasso das toadas que ecoam na floresta.
1 tiquinho do banho nos rios Tapajós e Arapiuns, em Alter do Chão, onde a água é espelho e alma.
2 pitadas de carimbó, pra temperar com corpo, tambor e sorriso.
E o recheio — ah, o recheio! — feito de Chico Mendes, raiz e resistência, o homem que ousou sonhar justiça na mata, e pagou com a vida o preço da esperança.
Foto histórica de recrutas do contingente conhecido como Soldados da Borracha, mobilizados entre 1943-45 para extração de látex na Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial. Autor e data não identificados.
Silêncio... vai começar!
Na última terça (04/11) fui assistir a Lampejo no Teatro Dragão do Mar.
Logo na entrada, fui recebido pelos atores que ofereciam oportunidades de trabalho no seringal:
“Você vai mudar de vida.”
“Seja patriota!”
Um convite tentador — a promessa de mudar de vida e, quem sabe, comprar meu apartamento na Beira-Mar.
O espetáculo tem início em cena aberta, mas é interrompido abruptamente por uma propaganda institucional:
“Seja bem-vindo, bem vinda e bem vind@x ao Teatro Dragão Mar, esse equipamento...”
Precisa ter o institucional, tudo bem — mas faz lá fora, na recepção do público, por favor!
Não interrompe o coito do espetáculo.
A peça já começou.
Os atores não podem ser interrompidos.
Então, silêncio!
Paguei inteira, não foi meia!
Voltemos para peça
Lampejo
substantivo masculino - clarão ou brilho momentâneo; faísca, centelha; cintilação.
A peça retrata o período do Segundo Ciclo da Borracha, ocorrido na década de 1940, quando o Nordeste enfrentava uma grande seca. Nessa saga, muitos nordestinos partiram em busca de novas perspectivas, migrando para o Norte do país.
O governo da época, sob a liderança de Getúlio Vargas, firmou um acordo com os Estados Unidos para reativar a produção de látex na região amazônica. Foram realizadas diversas campanhas no rádio, solicitando apoio para o recrutamento dos chamados “soldados da borracha”, oferecendo-lhes a promessa de melhores condições de vida e enriquecimento, tudo em nome do patriotismo.
Mais de 55 mil trabalhadores foram recrutados para atuar nesse ciclo, em sua maioria nordestinos.
Não é preciso dizer que o trabalho era árduo e trazia todas as características de um regime de trabalho análogo à escravidão.
De acordo com relatos da época, cada família de seringueiro recebia, a cada três meses: três sacos de farinha, um saco de feijão, um pequeno saco de sal, um saco de arroz, oito latas de banha e vinte gramas de quinino, medicamento utilizado no tratamento da malária. A carne só era consumida quando havia a sorte de caçar ou pescar alguma coisa.
+ Informações: “Soldados da Borracha” https://www.youtube.com/watch?v=kf4I79Ye-HM
Print dos cometários documentário "Soldados da borracha"
O espetáculo Lampejo, do coletivo Zanzulim, traz à tona os relatos de vários cearenses que imigraram para os estados da Amazônia Legal — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão (em parte), Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins — e nunca mais voltaram.
O fio condutor da peça é o relato do diário de Tia Quinha, tia-avó do ator Júnior Barreira, que corajosamente se desnuda em palavras para narrar a fuga de sua família, à época residente na cidade de Uruburetama, interior do Ceará.
A encenação é uma cartografia viva, um mapa afetivo do percurso dessa migração forçada. A sonoplastia ao vivo acrescenta outra camada de sensibilidade à obra e, sendo a composição do Beto Menêis e a direção musical do Zéis, dispensa comentários.
Os atores estão em perfeita sintonia com a história. Destaque para a atriz Samara Garcia, que, de forma visceral, não precisa fazer muito esforço para interpretar as palavras personificadas do diário de Tia Quinha. Beto Menêis, ator experiente, dono de si, malcriado e bem-criado, mostra novamente sua força em cena. Já o conheço de outros “giros”, e aqui ele reafirma sua presença.
Muito boa a composição do figurino, que remete à terra; e a luz, um clarão de beleza. Salve Aline Rodrigues. Que apareça mais iluminadoras na cena cearense.
A direção cênica do espetáculo acerta na junção entre luz, som, imagem e atuação.
Agora, o “chato”: a diretora Monique Cardoso, ao apostar na força poética do texto, poderia ter explorado um pouco mais os atores, em detrimento da palavra. Poderia também fazer maior uso do espaço e das possibilidades tecnológicas que a memória traz no enredo. Ferramentas não faltam — e, nesse aspecto, Lampejo transborda talento.
O espetáculo Lampejo está em cartaz todas as terças-feiras de novembro, no Teatro Dragão do Mar, dentro do projeto Teatro da Terça, sempre às 19h30. Ingressos na plataforma Sympla
(https://bileto.sympla.com.br/event/112424?share_id=1-copiarlink)
Imperdível!
O outro lado
É curto — apenas 50 minutos.
Eu queria mais.
Até pagaria por mais uns 20 minutos...
Ficha Técnica
DIREÇÃO - Monique Cardoso
ELENCO - Junior Barreira, Zeis, Beto Meneis, Samara Garcia
DRAMATURGIA -Coletiva
FIGURINO -Dami Cruz
MÚSICAS -Beto Meneis
DIREÇÃO MUSICAL -Zéis
DRAMATURGIA DE LUZ -Aline Rodrigues
IDENTIDADE VISUAL - Beatriz Benitez
COLABORAÇÃO -Bárbara Kariri
PRODUÇÃO -Junior Barreira
Por Edson Cândido (@edson_candido1)